Vulnerabilidade climática: perda de vegetação nativa no Brasil amplifica efeitos do El Niño

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Vulnerabilidade climática: perda de vegetação nativa no Brasil amplifica efeitos do El Niño

A contínua redução da vegetação nativa no Brasil, que atingiu 65% do território em 2025, expõe o país de forma crescente aos impactos do fenômeno El Niño. É o que revela a Coleção 11 dos mapas anuais de cobertura e uso da terra do MapBiomas, divulgada recentemente, que analisa um período de 41 anos.

O estudo aponta que áreas onde as florestas foram mantidas apresentaram maior resiliência, sendo menos afetadas pelos eventos climáticos extremos causados pelo aquecimento da superfície equatorial do Oceano Pacífico. Essa constatação sublinha a importância da conservação ambiental como estratégia de mitigação diante das mudanças climáticas.

Quatro décadas de perda: a retração da vegetação nativa brasileira

Entre 1985 e 2025, a cobertura de vegetação nativa no Brasil sofreu uma diminuição significativa, passando de 79% para 65% do território nacional. Durante esse período de mais de quatro décadas, a ação humana resultou na perda de extensas áreas de formações florestais, savânicas e campos alagados.

As formações florestais foram as mais impactadas em termos de área absoluta, com uma redução de 65 milhões de hectares. No entanto, proporcionalmente, as formações savânicas registraram a maior perda, com 30% de sua área total desaparecendo, o que corresponde a 46 milhões de hectares. Os campos alagados também sofreram perdas consideráveis, totalizando 6,3 milhões de hectares.

Apesar da intensa supressão, o levantamento do MapBiomas indica que 557 milhões de hectares mantiveram a mesma classe de cobertura ou uso da terra. Desse total, 335 milhões de hectares correspondem a florestas que permaneceram intactas, evidenciando a persistência de importantes remanescentes florestais.

El Niño e biomas: como a seca e o excesso de chuvas impactam o país

A pesquisa do MapBiomas cruzou dados da cobertura terrestre com informações da plataforma MapBiomas Atmosfera, que monitora o clima e a qualidade do ar. O foco da análise foram os extremos climáticos, como secas e temporais, observados durante os trimestres de setembro a novembro nos anos de El Niño mais intensos: 1997/98, 2015/16 e 2023/24.

Os resultados revelaram que a maioria dos biomas brasileiros foi severamente afetada por secas e pela ausência de chuvas nesses períodos de El Niño. Exceções foram notadas no bioma Pampa e em algumas regiões da Mata Atlântica, onde houve, paradoxalmente, um aumento na precipitação.

A Amazônia emergiu como o bioma mais atingido pelo déficit hídrico em todos os três eventos de El Niño analisados. No último fenômeno, em 2023/24, as áreas de agropecuária na Amazônia registraram os efeitos mais intensos, com uma redução de 178 milímetros de chuva em comparação com a média histórica. O Pantanal, por sua vez, vivenciou seu ano mais seco da série histórica em 2024, drasticamente impactado pelo El Niño mais recente.

No Cerrado e na porção norte da Mata Atlântica, a intensidade da seca aumentou a cada novo El Niño, com as áreas de vegetação nativa sendo as mais afetadas. No Pampa, as áreas de agropecuária foram impactadas pelo excesso de chuva, especialmente nos dois últimos fenômenos estudados, demonstrando a complexidade dos padrões climáticos.

Expansão agropecuária: o motor da transformação territorial

A expansão da agropecuária é identificada como o principal vetor da alteração do uso da terra no Brasil. Em 1985, essa atividade ocupava 18% do território nacional, percentual que saltou para 32% em 2025. Esse crescimento é impulsionado principalmente pela expansão de pastagens e áreas agrícolas.

As pastagens registraram um aumento de 61,6 milhões de hectares, enquanto a agricultura cresceu em 48 milhões de hectares ao longo do período. Essa expansão ocorreu predominantemente sobre áreas que antes abrigavam vegetação nativa nos seis biomas brasileiros, embora de forma desigual.

A Amazônia e o Cerrado foram os biomas que mais perderam em extensão territorial para a agropecuária, com reduções de 53,9 milhões e 51,7 milhões de hectares, respectivamente. A Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal também sofreram perdas significativas, com 10,1; 4,9; 4 e 1,9 milhões de hectares, respectivamente.

É notável que a Mata Atlântica, apesar das perdas históricas, tem mostrado uma trajetória de estabilização e até crescimento da vegetação nativa em algumas localidades nos últimos 20 anos. Proporcionalmente, contudo, o Cerrado e o Pampa apresentaram as maiores reduções, com perdas de 34% e 32% de suas áreas originais.

Cenário regional: estados e a recuperação de áreas verdes

A análise por unidades federativas revela que 25 dos 26 estados brasileiros, juntamente com o Distrito Federal, registraram uma diminuição na participação da vegetação nativa em seus territórios entre 1985 e 2025. A única exceção foi o estado do Rio de Janeiro, que conseguiu recuperar 1% de sua cobertura verde.

Entre os estados que mais perderam vegetação nativa proporcionalmente, destacam-se Rondônia, que viu sua cobertura nativa cair de 92% para 59%. O Maranhão passou de 91% para 61%, enquanto Mato Grosso e Tocantins ambos registraram reduções de 90% para 61% no mesmo período.

Novos horizontes: o mapeamento das marismas

Uma inovação na Coleção 11 do MapBiomas é o mapeamento, ainda em versão beta, das marismas. Essas áreas pantanosas, influenciadas por água salobra, foram identificadas pela primeira vez no estudo. Em 2025, foram mapeados 6,9 mil hectares de marismas, exclusivamente no bioma Pampa.

As marismas são ecossistemas caracterizados por vegetação herbácea, composta por gramíneas e juncos adaptados à água salgada. Elas se localizam nas margens de estuários, recebendo tanto água doce de rios e lagunas quanto a água do mar. As áreas incluídas no estudo estão situadas nas zonas estuarinas das lagoas Tramandaí-Armazém, Lagoa do Peixe, Laguna dos Patos e na foz do Arroio Chuí. Para mais detalhes sobre o estudo, acesse a fonte original.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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