RSF traça desafios e estratégias para garantir jornalismo íntegro no futuro

Início » RSF traça desafios e estratégias para garantir jornalismo íntegro no futuro
empresas multinacionais com total opacidade da sua política algorítmica.” De aco

A organização não governamental Repórteres sem Fronteiras (RSF) divulgou um relatório abrangente que destaca a urgência de combater a desinformação e promover a educação midiática. Essas medidas são consideradas essenciais para assegurar um jornalismo íntegro e de confiança no Brasil ao longo dos próximos dez anos. O documento, lançado em um período de intensos debates sobre a profissão, coincide com a celebração do Dia do Jornalista no país.

O estudo, que contou com a colaboração do Laboratório de Estudos sobre Organização da Pesquisa e da Inovação (Lab-GEOPI) da Unicamp, apresenta uma análise prospectiva, delineando quatro cenários hipotéticos para o futuro do jornalismo brasileiro e propondo seis estratégias fundamentais. O objetivo é garantir que a sociedade continue a ter acesso a informações confiáveis e de qualidade em um cenário midiático em constante transformação.

Cenários e Estratégias para o Jornalismo Íntegro

Os quatro cenários futuros para o jornalismo, desenvolvidos para o relatório da RSF, exploram diferentes dinâmicas que podem moldar a profissão. Eles variam desde um futuro dominado pelas plataformas digitais, onde a informação é altamente fragmentada, até um cenário de fortalecimento do jornalismo ou, em uma perspectiva mais sombria, o seu fim. Sérgio Lüdtke, coordenador de Projetos da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e editor-chefe do Projeto Comprova, que participou do comitê consultivo, ressalta que o futuro provavelmente será uma combinação desses elementos, e não um cenário isolado.

Para enfrentar esses desafios e direcionar o jornalismo para um caminho de integridade, o relatório propõe seis estratégias cruciais. Entre elas, destacam-se a necessidade de tornar o método jornalístico amplamente difundido, o combate ativo à desinformação e o fortalecimento das redes de cooperação entre organizações de jornalismo e universidades. Além disso, o documento enfatiza a diversificação dos modelos de financiamento, o investimento contínuo em educação midiática e a defesa de uma regulação adequada para a profissão.

O Impacto Dominante das Plataformas Digitais

Um dos principais desafios apontados pelo relatório é o crescente domínio das plataformas digitais, que transformam a maneira como as notícias são produzidas e consumidas. A falta de clareza entre conceitos como notícia, opinião, desinformação e propaganda, somada a um ambiente político polarizado, cria um terreno fértil para a disseminação de narrativas distorcidas. As pessoas, muitas vezes, alimentam suas convicções com base em conteúdos selecionados por algoritmos de redes sociais, o que dificulta o acesso a uma visão plural da realidade.

Samira de Castro, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), que também integrou o comitê consultivo, expressa preocupação com a dependência do jornalismo em relação às políticas algorítmicas dessas plataformas. Ela observa que, desde os grandes veículos até a mídia independente, a produção jornalística é impulsionada por esses meios digitais, controlados por empresas multinacionais com políticas algorítmicas opacas. Artur Romeu, diretor do escritório do RSF para a América Latina, complementa que o jornalismo passa a operar sob regras cada vez mais ditadas por essas grandes corporações, tornando-se dependente de seus canais de distribuição.

Essa “plataformização” resulta na desvalorização do jornalismo, que passa a competir em pé de igualdade com a desinformação e a propaganda, sendo muitas vezes percebido como apenas mais uma narrativa, conforme explica Sérgio Lüdtke. Ele alerta ainda que o avanço da inteligência artificial pode agravar o esvaziamento da profissão, substituindo jornalistas em atividades de apuração e escrita.

Riscos Adicionais e a Necessidade de Letramento Midiático

Além do domínio das plataformas digitais, o relatório da RSF identifica outros riscos significativos que ameaçam a integridade do jornalismo. Um ambiente político altamente polarizado, a histórica concentração de mídia no Brasil, o baixo letramento midiático e a insuficiente escolaridade da população são fatores que contribuem para a fragilidade do ecossistema de informação.

No dia a dia da comunicação, a desregulamentação da profissão de jornalista, a precarização e o enxugamento das redações, a perseguição a profissionais (especialmente mulheres), a censura e a autocensura de repórteres e editores são ameaças constantes. A substituição de jornalistas formados por influenciadores e a preferência por conteúdos de menor profundidade em busca de audiência também contribuem para visões segmentadas da realidade, comprometendo a qualidade e a abrangência da cobertura jornalística.

Fortalecendo a Informação Confiável e o Papel do Estado

Para reverter esses cenários e fortalecer a informação confiável, o relatório da RSF aponta para a necessidade de uma atuação mais robusta do Estado. Isso inclui o papel do Estado como legislador do funcionamento das plataformas digitais, regulador das atividades dos jornalistas e propulsor da atividade jornalística, inclusive em regiões que se tornaram “desertos de notícia”, sem veículos de comunicação em funcionamento.

O documento também enfatiza a importância da aproximação com as universidades, tanto para atualizar a formação de jornalistas diante dos novos cenários e estratégias quanto para atuar na educação midiática da população. Sérgio Monteiro Salles Filho, professor titular da Unicamp e integrante do Lab-GEOPI, sugere a criação de “selos” que atestem o trabalho jornalístico, indicando que processos de integridade e confiabilidade foram respeitados, com checagem e apuração rigorosas.

A garantia do direito de cada pessoa ao acesso à informação livre, plural, independente e de confiança é uma agenda que transcende os jornalistas e os meios de comunicação. Nesse contexto, o relatório destaca a relevância de agências como a Agência Brasil e outras agências estaduais. Elas são consideradas centrais na curadoria e distribuição de informações confiáveis, assegurando o acesso a fatos verificados e conteúdos de produção humana, com alta capilaridade para veículos locais e hiperlocais.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

Deixe um comentário

Your email address will not be published.