Cigarrinha-do-milho impõe perdas bilionárias e desafia a produção agrícola brasileira

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A agricultura brasileira enfrenta um de seus maiores desafios sanitários das últimas décadas: a cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis). Esta pequena praga, vetor de doenças conhecidas como enfezamentos, está causando um impacto econômico devastador, com prejuízos anuais que alcançam a impressionante marca de R$ 33,6 bilhões. Os dados, revelados por um estudo recente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), ligada ao Ministério da Agricultura e Pecuária, acendem um alerta sobre a sustentabilidade e a competitividade da produção de milho no país.

O levantamento detalhado aponta que, ao longo das quatro safras entre 2020 e 2024, as perdas acumuladas devido à ação do inseto nas lavouras ultrapassaram R$ 134,16 bilhões. Este cenário de perdas financeiras é acompanhado por uma redução significativa na produtividade, com uma média de 22,7% a menos de milho colhido no período, o que equivale a cerca de 31,8 milhões de toneladas anuais, ou aproximadamente 2 bilhões de sacas de 60 quilos que deixaram de ser produzidas.

Impacto econômico bilionário da cigarrinha-do-milho

A dimensão do prejuízo causado pela cigarrinha-do-milho não se restringe apenas à perda de grãos. O estudo da Embrapa também destaca um aumento considerável nos custos de produção. A aplicação de inseticidas para controlar a praga teve um acréscimo de 19% no período analisado, superando os R$ 46 por hectare. Esses valores adicionais oneram os produtores e contribuem para a instabilidade econômica do setor.

O Brasil, sendo o terceiro maior produtor mundial de milho e um dos principais exportadores do grão, tem sua balança comercial diretamente afetada. A estimativa para a safra 2025/2026 é de uma produção de 138,4 milhões de toneladas, com um valor de produção projetado em cerca de R$ 155 bilhões. No entanto, a persistência da praga ameaça esses números e a renda dos agricultores, comprometendo a estabilidade produtiva e a competitividade do país no mercado global.

Estudo aprofundado revela a dimensão do problema

As estimativas alarmantes são fruto de um estudo abrangente divulgado pela Embrapa, em colaboração com especialistas da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A pesquisa foi publicada na edição de abril da renomada revista científica internacional Crop Protection, especializada em proteção de cultivos agrícolas.

Utilizando dados históricos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) desde 1976, os pesquisadores calcularam os danos provocados pelos enfezamentos do milho, doenças bacterianas transmitidas pela cigarrinha. O levantamento foi conduzido em 34 municípios, considerados representativos das principais regiões produtoras de milho do Brasil. Segundo Charles Oliveira, pesquisador da divisão Cerrados da Embrapa, em cerca de 80% das localidades avaliadas, a cigarrinha ou os enfezamentos foram identificados como o fator central para a queda de produtividade.

A ameaça silenciosa à lavoura de milho

A cigarrinha-do-milho atua como um vetor, adquirindo os patógenos causadores do enfezamento ao se alimentar em plantas de milho já infectadas. Posteriormente, ela transmite essas bactérias para plantas sadias, propagando a doença pela lavoura. Os enfezamentos se manifestam de duas formas, pálido e vermelho, e causam alterações visíveis na coloração da planta, o aparecimento de estrias e, crucialmente, afetam severamente a produção de grãos.

Um dos aspectos mais preocupantes é a ausência de um tratamento preventivo eficaz contra o enfezamento, o que pode levar à perda total de lavouras. Embora a doença seja conhecida desde a década de 1970, surtos epidêmicos tornaram-se alarmantemente frequentes a partir de 2015. Charles Oliveira explica que mudanças no sistema de produção, como a expansão da safrinha (segunda safra de milho no mesmo ano agrícola) e o cultivo de milho durante quase todo o ano, criaram um ambiente propício para a sobrevivência e proliferação da cigarrinha e dos microrganismos que ela transporta.

Estratégias para mitigar os danos da praga

Diante da alta capacidade de reprodução e dispersão da cigarrinha-do-milho e da falta de tratamento preventivo direto para o enfezamento, a Embrapa tem trabalhado na divulgação de recomendações para minimizar o impacto da praga. Uma cartilha online está disponível para orientar os agricultores.

Entre os cuidados sugeridos, destacam-se:

  • Eliminação do milho tiguera: plantas voluntárias que surgem na entressafra, quebram o ciclo de vida do vetor e do patógeno.
  • Sincronização do plantio: evita janelas de semeadura prolongadas que favorecem a dispersão da cigarrinha entre as lavouras.
  • Uso de cultivares resistentes ou tolerantes: mantém níveis elevados de produtividade mesmo sob pressão das doenças.
  • Manejo inicial com controle químico e biológico: aplicação nos estádios iniciais da planta para prevenir infecções severas.
  • Monitoramento constante: vigilância contínua e coordenada entre produtores vizinhos para detecção precoce.

A pesquisa também explora o controle biológico, com a tentativa de usar fungos entomopatogênicos, inimigos naturais da praga. Esta abordagem se torna cada vez mais relevante, visto que algumas populações da cigarrinha-do-milho já demonstram resistência a certos grupos de inseticidas, exigindo novas estratégias de manejo integrado para proteger as lavouras e a economia agrícola do Brasil.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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