Em um movimento de profundo simbolismo político, o Estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo (SP), foi escolhido para sediar o lançamento da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República. O evento, agendado para as 9h deste domingo, 16, busca evocar a trajetória do líder petista e a origem do partido, reforçando a narrativa de “onde tudo começou” para a legenda.
Contudo, a escolha do local para o pontapé inicial da corrida eleitoral ocorre em um cenário de notável transformação política na própria cidade. Conhecida historicamente como o berço político de Lula e do Partido dos Trabalhadores, São Bernardo do Campo tem apresentado um crescente afastamento do petismo nas urnas, indicando uma reconfiguração das preferências eleitorais locais.
O simbolismo da campanha e a realidade local
A equipe de marketing do Partido dos Trabalhadores aposta na carga histórica de São Bernardo do Campo para dar o tom da campanha. Foi neste município que Lula emergiu como uma figura central do sindicalismo brasileiro, liderando as greves de metalúrgicos que marcaram a década de 1970. A cidade também foi o palco da fundação do PT em 1980, consolidando sua imagem como um polo de militância e ideologia para a esquerda.
Apesar dessa rica herança, a realidade eleitoral atual do maior município do ABC Paulista, com cerca de 840 mil habitantes, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), contrasta com o passado. A cidade que foi o ponto de partida para a ascensão política de Lula e do PT agora demonstra uma clara desconexão com o partido.
A transformação eleitoral em São Bernardo do Campo
O vínculo histórico de São Bernardo do Campo com o petismo tem se desfeito progressivamente ao longo dos anos. Nas eleições mais recentes, a rejeição a candidaturas do PT tornou-se evidente. Em 2024, por exemplo, o candidato petista à prefeitura, o deputado estadual Luiz Fernando Teixeira, não conseguiu avançar para o segundo turno da disputa.
A representatividade do partido na Câmara Municipal também reflete essa mudança. Enquanto em 2012 oito petistas conquistaram mandatos de vereador, nas eleições atuais, apenas quatro integrantes da legenda obtiveram sucesso. O ano de 2012 marcou, inclusive, a última vitória do petismo na disputa pela prefeitura são-bernardense, com a reeleição do então prefeito Luiz Marinho, hoje ministro do Trabalho, que obteve 65% dos votos válidos no primeiro turno.
A tentativa de Marinho de retornar à prefeitura em 2016 não obteve o mesmo êxito. Ele conquistou apenas 23% dos votos, sendo superado pelo então candidato à reeleição, Orlando Morando, do PSDB à época, que venceu no primeiro turno com 67% dos votos, consolidando uma nova dinâmica política na cidade.
O “cinturão vermelho” do ABC Paulista em reconfiguração
O fenômeno de afastamento do PT não se restringe apenas a São Bernardo do Campo, mas se estende por outras cidades da região do ABC Paulista. São Caetano do Sul, por exemplo, nunca elegeu um prefeito do PT e não tem um vereador petista desde 2008, evidenciando uma resistência histórica ao partido.
Em Santo André, cidade que também possui um histórico de forte presença operária, a última eleição de um representante do PT para a prefeitura ocorreu em 2012, com a vitória de Carlos Grana. Nas eleições de 2024, dos 27 vereadores eleitos, apenas três eram petistas. A região, que já foi amplamente conhecida como o “cinturão vermelho” devido à sua força eleitoral para o PT, atualmente conta com apenas um prefeito filiado ao partido: Marcelo Oliveira, de Mauá. Curiosamente, ele é o único prefeito de toda a Região Metropolitana de São Paulo que não apoia a candidatura à reeleição do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), sublinhando a complexidade e as novas alianças políticas que se formam na área.
Fonte: revistaoeste.com

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