O ‘Idiota’ de Bolsonaro: Uma Dupla Leitura no Cenário Político Brasileiro

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O ‘Idiota’ de Bolsonaro: Uma Dupla Leitura no Cenário Político Brasileiro

Em uma comunicação destinada à sua parceira, o empresário Daniel Vorcaro utilizou o termo 'idiota' para se referir a Jair Bolsonaro. A intenção por trás do epíteto era claramente depreciativa. No contexto da alta cúpula política e financeira brasileira, a palavra 'idiota' tipicamente designa alguém desprovido da capacidade de compreender as delicadezas do poder, a lógica das conveniências ou a teatralidade das virtudes públicas.

Esta linguagem é similar à empregada por Alexandre de Moraes, que chamou internautas de direita de 'imbecis', ou Luís Roberto Barroso, que ofendeu um eleitor de Bolsonaro com a palavra 'mané'. Tais designações compartilham a função de estabelecer uma clara divisão: 'nós', a elite sagaz e intocável que opera acima da lei, e 'eles', os cidadãos comuns, percebidos como simplórios, desprovidos de poder e sem 'pedigree', que não integram o grupo que comanda a República.

Nessa perspectiva, o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, pode ter, de certa forma, acertado em sua caracterização de Bolsonaro como 'idiota'. Contudo, essa afirmação não se alinha ao sentido pejorativo originalmente pretendido por Vorcaro, Alexandre, Barroso e seus pares. Existem insultos que, sob uma análise literária mais aprofundada, podem se transformar em elogios não intencionais.

Isso se deve a uma interpretação alternativa do conceito de 'idiota', imortalizada por Fiódor Dostoievski em seu romance de 1869, 'O Idiota'. O protagonista da obra, o príncipe Lev Nikoláievitch Myshkin, não é retratado como alguém estúpido. Pelo contrário, sua figura é marcada pela perspicácia, sinceridade e uma profunda humanidade. Sua 'idiotia' reside na incapacidade de ser cínico, de fingir virtudes inexistentes ou de dominar as artes da intriga sofisticada e do cálculo frio de vantagens. Em um ambiente permeado por ambição, vaidade e dissimulação, Myshkin é percebido como uma anomalia.

De maneira análoga a Myshkin, Jair Bolsonaro é frequentemente visto como um 'idiota' por não conseguir se integrar ao complexo jogo social que define a vida das elites. Brasília, nesse contexto, assemelha-se a uma corte tropical onde a regra de ouro é a dissimulação: nunca expressar abertamente o que se pensa. Nesse cenário, prosperam políticos que adotam uma retórica moderada enquanto negociam nos bastidores, banqueiros que financiam diversas facções e tecnocratas que ostentam virtudes republicanas enquanto gerenciam seus interesses pessoais de forma discreta.

Por que Bolsonaro Desperta a Repulsa das Elites

Nesse ambiente, desde sua época como parlamentar do 'baixo clero' — um rótulo que sempre o acompanhou —, Bolsonaro demonstrou um notável desajuste, quase antropológico. Ele carece do refinamento superficial esperado de um político profissional e, mais crucialmente, da hipocrisia controlada que permite ao establishment proclamar princípios elevados enquanto se entrega a vícios muito mundanos.

Essa característica é a raiz da irritação quase visceral que ele provoca em certos segmentos sociais. A questão central não é tanto o que Bolsonaro faz, mas a forma como age: excessivamente direto, transparente e desajeitado para o gosto de uma elite que valoriza a encenação das aparências. A comparação é feita com um relógio Cassio em um universo dominado por Pateks Philippes.

Assim como o príncipe Myshkin, Bolsonaro frequentemente parece incapaz de decifrar as regras não ditas do jogo social. Ele verbaliza seus pensamentos em momentos nos quais a prudência política ditaria a recitação de clichês. Expõe conflitos que, pelo protocolo da elite, deveriam ser cuidadosamente ocultados. Em vez de assimilar a atmosfera dos salões do poder, ele persiste em adotar uma linguagem mais crua, vinda das ruas.

Aqui reside a dimensão dostoievskiana da presença de Jair Bolsonaro no cenário político nacional. Para o establishment político-financeiro, um indivíduo que não domina a arte da dissimulação só pode ser um 'idiota', um 'beócio' — termo também empregado por Vorcaro. E talvez seja exatamente por essa razão que tantos brasileiros comuns — igualmente rotulados de 'idiotas' e 'manés' nos encontros com uma cleptocracia que os menospreza — o compreendem de forma intuitiva. Eles, por experiência própria, também reconhecem que a sociedade brasileira é regida por uma elite que exibe virtudes públicas admiráveis com a mesma facilidade com que pratica os mais variados vícios privados.

Nesse universo de fachadas, o 'idiota' — aquele que é incapaz de mentir com elegância — adquire uma peculiar dignidade. À semelhança do príncipe de Dostoievski, Bolsonaro se sente fora de lugar entre os grandes nomes do poder. E é justamente esse desencaixe que elucida tanto o desdém que ele gera nas elites quanto a lealdade inabalável que inspira.

Fonte: https://revistaoeste.com

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